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sábado, 26 de janeiro de 2013

Caminho de Assis.

Que lindo! Admiro igualmente S. Francisco de Assis. A ele a minha devoção.




Caminho de Assis
Por Frei Manuel Rito Dias, OFM


Quando o sol queimar os egoísmos
E a cidade voltar ao ritmo das crianças,
Quando o sonho encontrar seu mar
E a montanha o seu Alverne...
Um novo Cântico do Sol encherá o céu
De versos inéditos de Francisco.

Quando formos capazes
De descer do nosso próprio cavalo
Para beijar o leproso
E caminhar a pé, com ele Cireneu,
Sem temer a indiferença das maiorias...
Só então nossos discursos
Irão além das boas intenções.

Quando nossas janelas, estradas e canções
Tiverem olhos e ouvidos de Francisco...
Para todas as paisagens haverá um pintor,
Para todas as borrascas um arco-íris
E para todos os sofrimentos uma Páscoa.
As nossas palavras serão de Paz e Bem,
As nossas construções de fraternidade;
E quando o futuro despertar a noite
O mundo será da cor dos corações.

Quando nos despirmos, como Francisco,
De todas as roupas e ambições,
Das máscaras, preconceitos e plágios,
Das hipocrisias e ilusões do consumo,
De todas as maquilhagens e prisões sociais...
Nesse dia, remidos de todas as mentiras,
Teremos ganho a verdade que liberta.

Quando entregarmos a capa ao pobre,
(porque o irmão vale mais que a roupa),
quando oferecermos a Bíblia à viúva
(porque a caridade vale mais que a Palavra de Deus),
quando partilharmos o pão que mendigamos
(porque a vida vale mais que o alimento),
quando gastarmos tempo com o doente
(porque o doente vale mais que o tempo),
então Assis ficará mais perto;
em cada mulher haverá um coração de Clara
e em cada homem, um rosto de Francisco.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Por trás de um simples focinho

"Por trás de um simples focinho" de Claudia Zippin Ferri
Ah, se as pessoas soubessem o que há por
trás de um focinho,
Focinho úmido, geladinho,
Preto, marrom, desbotadinho,
Simples e lindos focinhos.

Ah, se as pessoas soubessem o valor de um focinho,
Focinho medroso ou metido,
Focinho manhoso, carinhoso,
Simples amigos focinhos.

Ah, se as pessoas tivessem ao menos um focinho,
Não sobre o próprio rosto,
Mas em carne, pelo e osso,
Fonte pura de carinhos.

Ah, se as pessoas protegessem os focinhos,
Focinhos que vivem sozinhos,
Amores desperdiçados; focinhos amargurados,
Focinhos pra todo lado.

Ah, se as pessoas conhecessem os focinhos,
Quanto amor, quanto carinho,
Anjos peludos, sem narizinhos.
Anjos fofos atrás de focinhos.

Ah, se eu pudesse ver todos os focinhos,
Amados e acolhidos,
Crianças da criação, anjos de bem querer,
Focinhos em plena evolução.

Ah, se as pessoas soubessem,
Quanto amor e dedicação,
Quanta vida, quanta paixão,
Quanto vale o amor de um cão (ou de um gatão).

Ah, se eu pudesse mostrar para todos,
o valor de um focinho,
A gratuidade de um carinho,
O que existe de verdade,
Por trás de um simples focinho.

domingo, 12 de setembro de 2010

Não sei- Cora Coralina



NÃO SEI...
                                                                                    (Cora Coralina)  
Não sei... se a vida é curta ...
Não sei...
Não sei...
Se a vida é curta
ou longa demais para nós.

Mas sei que nada do que
Vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe, braço que envolve,
palavra que conforta, silêncio que respeita,
alegria que contagia, lágrima que corre,
olhar que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa do outro mundo:
é o que dá sentido à vida.

É isso que faz com que
ela não seja nem curta,
nem longa demais, mas
que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.


J. G. de Araujo Jorge

J. G. de Araújo Jorge
 
PRIMAVERA
 
O teu amor, querida, fez um dia de primavera neste começo de outono que é a minha vida.
E do ramo, de onde as primeiras folhas se soltavam pálidas, sem cor, surgiu uma flor imprevista: o teu amor...
Teu amor chegou assim como uma coisa que no fundo se deseja mas não se espera, emocionando o coração, neste começo de outono como um dia de primavera!

terça-feira, 23 de março de 2010

Florbela Espanca


Biografia


Mesmo antes de seu nascimento, a vida de Florbela Espanca já estava marcada pelo inesperado, pelo dramático, pelo incomum.

Seu pai, João Maria Espanca era casado com Maria Toscano. Como a mesma não pôde dar filhos ao marido, João Maria se valeu de uma antiga regra medieval, que diz que quando de um casamento não houver filhos, o marido tem o direito de ter os mesmos com outra mulher de sua escolha. Assim, no dia 8 de dezembro de 1894 nasce Flor Bela Lobo, filha de Antónia da Conceição Lobo. João Maria ainda teve mais um filho com Antónia, Apeles. Mais tarde, Antónia abandona João Maria e os filhos passam a conviver com o pai e sua esposa, que os adotam.

Florbela entra para o curso primário em 1899, passando a assinar Flor d’Alma da Conceição Espanca. O pai de Florbela foi em 1900 um dos introdutores do cinematógrafo em Portugal. A mesma paixão pela fotografia o levará a abrir um estúdio em Évora, despertando na filha a mesma paixão e tomando-a como modelo favorita, razão pela qual a iconografia de Florbela, principalmente feita pelo pai, é bastante extensa.

Em 1903, aos sete anos, faz seu primeiro poema, A Vida e a Morte. Desde o início é muito clara sua precocidade e preferência a temas mais escusos e melancólicos.

Em 1908 Antônia Conceição, mãe de Florbela, falece. Florbela então ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, fazendo com que a família se desloque para essa cidade. Foi uma das primeiras mulheres a ingressar no curso secundário, fato que não era visto com bons olhos pela sociedade e pelos professores do Liceu. No ano seguinte casa-se no dia de seus 19 anos com Alberto Moutinho, colega de estudos.

O casal mora em Redondo até 1915, quando regressa à Évora devido a dificuldades financeiras. Eles passam a morar na casa de João Maria Espanca. Sob o olhar complacente de Florbela ele convive abertamente com uma empregada, divorciando-se da esposa em 1921 para casar-se com Henriqueta de Almeida, a então empregada.

Voltando a Redondo em 1916, Florbela reúne uma seleção de sua produção poética de 1915 e inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e três contos. O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de Mágoas e o Livro de Soror Saudade.

Regressando a Évora em 1917 a poetisa completa o 11º ano do Curso Complementar de Letras, e logo após ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Após um aborto involuntário, se muda para Quelfes, onde apresenta os primeiros sinais sérios de neurose. Seu casamento se desfaz pouco depois.

Em junho de 1919 sai o Livro de Mágoas, que apesar da poetisa não ser tão famosa faz bastante sucesso, esgotando-se rapidamente. No mesmo ano passa a viver com Antônio Guimarães, casando-se com ele em 1921. Logo depois Florbela passa a trabalhar em um novo projeto que a princípio se chamaria Livro do Nosso Amor ou Claustro de Quimeras. Por fim, torna-se o Livro de Soror Saudade, publicado em janeiro de 1923.

Após mais um aborto separa-se pela segunda vez, o que faz com que sua família deixe de falar com ela. Essa situação a abalou muito. O ex-marido abriu mais tarde em Lisboa uma agência, “Recortes”, que enviava para os respectivos autores qualquer nota ou artigo sobre ele. O espólio pessoal de Antônio Guimarães reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981, ano do falecimento do ex-marido. Ao todo são 133 recortes.

Em 1925 Florbela casa-se com Mário Lage no civil e no religioso e passa a morar com ele, inicialmente em Esmoriz e depois na casa dos pais de Lage em Matosinhos, no Porto.

Passa a colaborar no D. Nuno em Vila Viçosa, no ano de 1927, com os poemas que comporão o Charneca em Flor. Em carta ao diretor do D. Nuno fala da conclusão de Charneca em Flor, e fala também da preparação de um livro de contos, provavelmente O Dominó Preto.

No mesmo ano Apeles, irmão de Florbela, falece em um trágico acidente, fato esse que abalou demais a poetisa. Ela aferra-se à produção de As Máscaras do Destino, dedicando ao irmão. Mas então Florbela nunca mais será a mesma, sua doença se agrava bastante após o ocorrido.

Começa a escrever seu Diário de Último Ano em 1930. Passa a colaborar nas revistas Portugal Feminino e Civilização, trava também conhecimento com Guido Batelli, que se oferece para publicar Charneca em Flor. Florbela então revê em Matosinhos as provas do livro, depois de tentar o suicídio, período em que a neurose se agrava e é diagnosticado um edema pulmonar.

Em dois de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas.” Às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Algumas décadas depois seus restos mortais são transportados para Vila Viçosa, “… a terra alentejana a que entranhadamente quero”.

É preciso ler sua biografia, para entender o porque da nostalgia de seus versos.
São muitos e lindíssimos. Gosto demais, o que faz que "de vez em sempre", posto
alguma poesia sua. Ainda tenho muitas a conhecer e sempre me encanto.Veja:

Saudades

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Florbela Espanca




Por onde ando, não posso nunca deixar de citar Florbela. Amo suas poesias, embora acho-as em sua maioria, tristes.E com motivos...e para entende-las preciso é ter conhecimento de sua biografia. Aos poucos, postarei aquelas de que mais gosto (senão todas...)
Vejam aqui, sua biografia. Uma vida, marcada por tristes momentos...
Abaixo, um vídeo que fiz, motivada por saber que uma de suas mais lindas poesias, foi musicada e belamente cantada por Teresa Silva Carvalho (portuguesa).
(Desligue o som do blog)